O número de empresas com restrições de crédito em Mato Grosso do Sul disparou 42% em um ano, refletindo o avanço da inadimplência no setor produtivo e o aumento da pressão financeira sobre os negócios.
Dados da Serasa Experian enviados ao Correio do Estado apontam que a quantidade de CNPJs negativados saiu de 89.484 em janeiro de 2025 para 127.516 em janeiro deste ano, evidenciando o agravamento do quadro ao longo de 12 meses.
- A escalada ocorreu de forma contínua durante todo o período analisado.
O levantamento mostra que o volume total de dívidas negativadas também apresentou crescimento expressivo ao longo de 2025.
Em janeiro daquele ano, o montante era de R$ 2,16 bilhões, chegando a R$ 3,28 bilhões em janeiro deste ano, o que representa um avanço de mais de R$ 1,1 bilhão em valores inadimplidos no Estado.
No mesmo intervalo, a quantidade de dívidas passou de 737.723 para 977.014 registros, indicando aumento relevante na quantidade de compromissos financeiros em atraso.
- Além da ampliação do número de empresas negativadas, os dados revelam que cada CNPJ possui, em média, cerca de oito débitos pendentes.
O indicador de dívida média por empresa oscilou ao longo do período, variando entre R$ 24.202,16 e R$ 26.726,18, encerrando janeiro deste ano em R$ 25.761,38.
Já o ticket médio por dívida apresentou trajetória de alta, passando de R$ 2.935,66 no início de 2025 para R$ 3.362,27 no primeiro mês deste ano.

O comportamento dos indicadores aponta para uma deterioração gradual das condições financeiras das empresas, sobretudo ao longo do segundo semestre de 2025, quando houve crescimento mais intenso no volume de débitos.
>> Entre julho e dezembro de 2025, por exemplo, o número de empresas negativadas saltou de 108.667 para 125.771, enquanto o montante devido subiu de R$ 2,82 bilhões para R$ 3,22 bilhões.
Para a economista da datatech, Camila Abdelmalack, o aumento da inadimplência reforça sinais de fragilidade financeira no setor corporativo.
|“O número recorde de empresas inadimplentes reforça os sinais de fragilidade financeira no setor corporativo. A desaceleração na concessão de crédito tem limitado a capacidade das empresas de renegociar dívidas e reorganizar suas obrigações financeiras, aumentando a pressão sobre o caixa. O esfriamento da atividade econômica reduz a geração de receita, criando um cenário desafiador para a manutenção da liquidez e para a sustentabilidade das operações, especialmente entre micro e pequenas empresas”, avalia.
Segundo a economista, as empresas de menor porte tendem a sentir com maior intensidade os impactos.
|“As micro, pequenas e médias empresas sentem mais rapidamente os impactos dos juros altos e das incertezas do cenário internacional. Em um ambiente movediço, as maiores têm mais estrutura para honrar as suas dívidas, mesmo com o giro de capital impactado pela retração diante dos desafios do cenário econômico brasileiro”, conclui Camila.
Os dados da Serasa Experian mostram que a inadimplência empresarial em MS mantém trajetória ascendente, com sucessivos aumentos mensais tanto no número de empresas negativadas quanto no volume de dívidas. A tendência de alta indica um ambiente de maior cautela para o setor produtivo.
CENÁRIO
O avanço da inadimplência ocorre em um cenário de custo de crédito elevado no Brasil. Economistas apontam que a taxa básica de juros, a Selic, atualmente em 14,75% ao ano, influencia diretamente o custo de captação das instituições financeiras e, consequentemente, o valor final cobrado em empréstimos e financiamentos.
O spread bancário (diferença entre o custo de captação e a taxa cobrada ao tomador) é considerado elevado no País e contribui para o encarecimento do crédito.
Especialistas destacam ainda fatores estruturais que ajudam a explicar o nível elevado dos juros, como o desequilíbrio das contas públicas, o baixo nível de poupança interna, a insegurança jurídica e a baixa concorrência no setor bancário.
|“ Para chegar a esse ponto [de ter um juro tão mais alto do que os demais países], é difícil escolher uma causa única, mas poria no topo da lista o papel do próprio Estado nessa história, na política fiscal, no endividamento” disse o ex-presidente do Banco Central (BC) Arminio Fraga ao jornal O Globo.
Súzan Benitez–www.correiodoestado.com.br



