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Escalada da guerra no Irã encarece fertilizantes e ameaça safra 2026/27 em MS

Cerca de 60% dos insumos ainda serão comprados com preços elevados, pressionando custos da produção no Estado

Colheitadeira em lavoura de soja em Mato Grosso do Sul (Foto: Divulgação)

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Especialistas do agronegócio alertam que a escalada do conflito no Oriente Médio – que transformou o Estreito de Ormuz em um gargalo logístico global, elevando fretes, seguros e o custo de fertilizantes – já começa a pressionar a safra de verão 2026/2027 em Mato Grosso do Sul, especialmente de soja e milho.

A estimativa é de que cerca de 60% dos insumos necessários para o próximo plantio ainda sejam adquiridos aos preços atuais, o que deve elevar os custos de produção no campo e pode gerar reflexos inflacionários.

  • No Brasil, os preços da ureia – o fertilizante mais impactado desde o início dos conflitos – subiram 50% nos últimos 30 dias e 89% na comparação anual, segundo o boletim Radar Agro, da Consultoria Agro do Itaú BBA.

A tendência é de redução da oferta no mercado interno, também sob os efeitos da China que vem reforçando restrições às exportações para garantir o abastecimento doméstico.

O especialista da Consultoria Agro do Itaú BBA, Francisco Queiroz, afirmou ao Campo Grande News que, em Mato Grosso do Sul, o impacto deve ser mais intenso na safra 2026/27 da soja, cujo plantio começa entre o fim de setembro e o início de outubro.

Cerca de 40% dos fertilizantes já foram comprados – próximo da média histórica, de 42% a 45%. No entanto, a maior parte dos insumos ainda será adquirida sob os preços atuais, o que tende a elevar os custos para o produtor.

|“O ponto central é que, se o conflito persistir e os preços continuarem elevados, o produtor não poderá adiar muito mais as compras. Chega um momento em que será necessário adquirir os insumos pelo preço vigente, para garantir a entrega na fazenda a tempo do plantio”, disse.

Francisco Queiroz, da Consultoria Agro do Itaú BBA (Foto: Divulgação)
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O analista Carlos Cogo, sócio-diretor da Cogo Inteligência em Agronegócio, com sede em Porto Alegre (RS) concorda que o principal efeito da alta será o aumento dos custos de produção da safra 2026/2027, incluindo o milho.

Ele também aponta risco de escassez no mercado global, já que o período marca o início das compras para a próxima temporada.

|“O movimento vai além do conflito em si. O Oriente Médio segue como um dos principais polos globais de produção de nitrogenados, com forte dependência do gás natural — insumo que também vem sendo impactado pelo cenário geopolítico”, afirmou o analista.

Queiroz lembra que  o mercado de fertilizantes voltou ao centro das atenções com a intensificação do conflito, que impacta diretamente o comércio global de insumos ao elevar prêmios de risco, fretes e seguros, além de reprecificar o custo de reposição de nutrientes agrícolas.

Organismos internacionais também têm alertado para o efeito do Estreito de Ormuz sobre cadeias essenciais, por se tratar de uma rota crítica do comércio marítimo e de uma região relevante na exportação de fertilizantes.

Analista Carlos Cogo, sócio-diretor da Cogo Inteligência em Agronegócio

Navios parados e risco de desabastecimento

Há relatos de mais de 20 navios parados na região, transportando cerca de 1 milhão de toneladas de fertilizantes, incluindo ureia, enxofre e fosfatados.

O Oriente Médio está entre os principais fornecedores de fertilizantes para o Brasil. Em 2025, respondeu por 17% dos fosfatados importados, 16% dos nitrogenados e 10% dos potássicos.

  • Esse volume chega ao país – incluindo Mato Grosso do Sul – por meio de tradings globais como Yara International, The Mosaic Company, Nutrien, Cargill, Bunge e ADM (Archer Daniels Midland), que atuam da originação à distribuição interna.
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A região também concentra entre 30% e 35% da capacidade global de exportação de ureia, o que amplia os impactos de eventuais restrições logísticas sobre preços e abastecimento.

De acordo com o Radar Agro, o conflito ainda não tem prazo para terminar, apesar do anúncio recente de um cessar-fogo temporário e de avanços nas negociações entre Estados Unidos e Irã.

O cenário é agravado pelas restrições chinesas às exportações, o que pressiona ainda mais os preços no Brasil.

|“Com estoques menores e deterioração da relação de troca, o balanço de riscos para 2026 aponta maior volatilidade, viés de alta e possibilidade de redução das entregas em relação a 2025”, destaca o relatório da consultoria do Itaú BBA.

Preços sobem e mercado entra em tensão

A ureia atingiu US$ 710/t CFR (Custo e frete) no Brasil, com alta de 50% em 30 dias e 89% no ano.

O MAP (Fosfato monoamônico) segue pressionado pelo encarecimento do enxofre e do ácido sulfúrico, além das restrições chinesas e subiu 17% no período, para US$ 850/t.

Já o KCl (Cloreto de potássio) teve pouca influência do conflito, com preços relativamente estáveis em US$ 383/t.

Na atual safra, especialmente a safrinha já em campo, o impacto tende a ser limitado, já que os insumos foram adquiridos antecipadamente pelos produtores.

|“Por isso, o impacto, especialmente no milho de segunda safra, tende a ser bastante limitado. Em Mato Grosso do Sul, praticamente todo o fertilizante já havia sido comprado antes da alta, principalmente os nitrogenados”, afirmou Queiroz.

Queda do PIB agropecuário

O relatório Resenha Regional do Banco do Brasil também aponta que a intensificação do conflito tem pressionado o petróleo no mercado internacional, elevando os custos da agropecuária via transporte e insumos.

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|“Esse movimento tende a elevar os custos da agropecuária, tanto pelo encarecimento do transporte quanto pelo aumento dos preços de insumos, especialmente fertilizantes”, aponta o relatório.

A projeção é de queda de 3,8% no PIB (Produto Interno Bruto) agropecuário do Centro-Oeste, após alta de 23,2% na safra anterior.

Em Mato Grosso do Sul, a previsão é de retração de 1,6%, após crescimento de 26,9% em 2025.

Apesar do cenário adverso, o relatório indica que a retomada da indústria local – com destaque para celulose e etanol – deve sustentar parte do crescimento econômico, mantendo o dinamismo da cadeia do agronegócio.

Viviane Monteiro | Brasília/Campo Grande News

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